Estava
arrumada, da minha maneira, com aquele mesmo vestido e, por baixo, aquele seu/meu
pijama, já que meu dia seria longo... E sim, não foi. Esqueceram. Até
onde presenciei, esqueceram mais uma vez. Ok. Sem problemas. Estava esperando
ele. Não chegava. Uma mulher, que conhecia sem conhecer, chegou e se sentou no
sofá esquerdo, perpendicular à rede.
Colocaram
uma parte de um filme para discussão, ali, naquele teatro. Eu que sou atenta, não
vi o filme atravessar. Falou uma, falou um e falou ele. Ele. Não quem estava
esperando. Ele! Ele
estava do outro lado, na arquibancada, com o disco que fazia barulhos. Observei
calmamente e intrigada de o vê-lo ali. Na minha época, isso, de falar em
público, não era com ele. Achei diferente e logo pensei, é porque está, porque
é.
Fez
considerações plausíveis. Sentei no sofá que tinha atrás da rede, pra me
afastar da não-conhecida e nisso, ainda explicando seu ponto, fui compreender
sensatez. Para
explicação de seu argumento, foi até mim e tocou na minha mão. Paralisei e
depois de uns segundos, sorri. Ao finalizar, se sentou ali, ao meu lado.
A
discussão continuou com outra pessoa. A conhecida chegou e disse “não faz mais
nada”. Foram instantes, lá, na consciência do devaneio, eu teria abaixado
minha cabeça e concordado. Mas lembrei que, hoje, tenho voz. E perguntei
“perdão?”. Mesmo comentário. E acrescentei “por quê?”. Ela respondeu duas
infelizes palavras.
Nisso,
ela fez uma construção de mim que continuava a mesma: aquela que aceitava
qualquer palavra do outro, que lia, isolada, livros durante os recreios, que copiava as matérias aos outros nos intervalos. Não me viu diferente. Mas não liguei. Antes de
responder que gosto do vestido florido, ele assim o fez.
Ela
estranhou. Eu complementei e virei. Nos olhamos com profundidade e soltamos sorrisos
discretos. O anseio podia ter ficado minutos eternos ali, mas logo se foi. Junto com
mais uma memória construída de você. Acontece isso também, com você, de nós?
Mariana Baldani
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