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04 setembro 2019

repetição de muda

Era quase a metade daquele teatro aberto. Intimista, convidativo, bem aconchegante. Dentro, parecia uma escola antiga. Não a minha e nem a sua. Estava no palco, lá embaixo, em uma rede como se fosse especial... Seria meu aniversário? Claro, faz sentido. Porém, ninguém havia me parabenizado.


Estava arrumada, da minha maneira, com aquele mesmo vestido e, por baixo, aquele seu/meu pijama, já que meu dia seria longo... E sim, não foi. Esqueceram. Até onde presenciei, esqueceram mais uma vez. Ok. Sem problemas. Estava esperando ele. Não chegava. Uma mulher, que conhecia sem conhecer, chegou e se sentou no sofá esquerdo, perpendicular à rede.

Colocaram uma parte de um filme para discussão, ali, naquele teatro. Eu que sou atenta, não vi o filme atravessar. Falou uma, falou um e falou ele. Ele. Não quem estava esperando. Ele! Ele estava do outro lado, na arquibancada, com o disco que fazia barulhos. Observei calmamente e intrigada de o vê-lo ali. Na minha época, isso, de falar em público, não era com ele. Achei diferente e logo pensei, é porque está, porque é.

Fez considerações plausíveis. Sentei no sofá que tinha atrás da rede, pra me afastar da não-conhecida e nisso, ainda explicando seu ponto, fui compreender sensatez. Para explicação de seu argumento, foi até mim e tocou na minha mão. Paralisei e depois de uns segundos, sorri. Ao finalizar, se sentou ali, ao meu lado.

A discussão continuou com outra pessoa. A conhecida chegou e disse “não faz mais nada”. Foram instantes, lá, na consciência do devaneio, eu teria abaixado minha cabeça e concordado. Mas lembrei que, hoje, tenho voz. E perguntei “perdão?”. Mesmo comentário. E acrescentei “por quê?”. Ela respondeu duas infelizes palavras.

Nisso, ela fez uma construção de mim que continuava a mesma: aquela que aceitava qualquer palavra do outro, que lia, isolada, livros durante os recreios, que copiava as matérias aos outros nos intervalos. Não me viu diferente. Mas não liguei. Antes de responder que gosto do vestido florido, ele assim o fez.

Ela estranhou. Eu complementei e virei. Nos olhamos com profundidade e soltamos sorrisos discretos. O anseio podia ter ficado minutos eternos ali, mas logo se foi. Junto com mais uma memória construída de você. Acontece isso também, com você, de nós?

Mariana Baldani

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