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20 agosto 2016

Guerra, de Cecília Meireles

"Tanto é o sangue
que os rios desistem de seu ritmo,
e o oceano delira
e rejeita as espumas vermelhar.
Tanto é o sangue
que até a lua se levanta horrível,
e erra nos lugares serenos,
sonâmbula de auréolas rubras,
com o fogo do inferno em sua madeixas.
Tanta é a morte
que nem os rostos se conhecem, lado a lado,
e os pedaços de corpos estão por ali como tábuas sem uso.
Oh! Os dedos com alianças perdidos na lama...
Os olhos que já não pestanejam como a poeira...
As bocas de recados perdidos...
O coração dado aos vermes, dentro dos densos uniformes...
Tanta é a morte
que só as almas formariam colunas,
as almas desprendidas e alcançariam as estrelas...
E as máquinas de entranhas abertas,
e os cadáveres ainda armados
e a terra com suas flores ardendo,
e os rios espavoridos como tigres, com sua máculas,
e este mar desvairado de incêndios e náufragos,
e a lua alucinada de seu testemunho,
e nós e vós, imunes,
chorando apenas sobre fotografias,

tudo é tão natural, armar e desarmar de andaimes
entre tempos vagarosos
sonhando arquiteturas."

"Na foto o menino Omran Daqneesh, de 5 anos, aguarda atendimento em uma ambulância, sujo de sangue e poeira após ser resgatado dentre escombros de um edifício alvo de um bombardeio aéreo em Aleppo, no norte da Síria." Fotografia de Reuters.

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