Capítulo 1 - Os dois
No altar dos artistas, lá estava ele: João, o protagonista principal, revestido de cores dos 3 holofotes. Seus cabelos enrolados, seus olhos esverdeados e seu sorriso simpático eram realçados pelos feixes de luz. Suas vozes não falhavam, eram sempre muito bem entoadas de humor e um pouco de clamor. Os gestos, sem cálculos, seduziam. Os passos, calmos, induziam paz. Os cachos grandes e soltos brilhavam liberdade. Liberdade esta que se refletia de seu peito. Mas, sua palidez do amor, escondida. No fundo. Bem no fundo.
No altar dos artistas, lá estava ele: João, o protagonista principal, revestido de cores dos 3 holofotes. Seus cabelos enrolados, seus olhos esverdeados e seu sorriso simpático eram realçados pelos feixes de luz. Suas vozes não falhavam, eram sempre muito bem entoadas de humor e um pouco de clamor. Os gestos, sem cálculos, seduziam. Os passos, calmos, induziam paz. Os cachos grandes e soltos brilhavam liberdade. Liberdade esta que se refletia de seu peito. Mas, sua palidez do amor, escondida. No fundo. Bem no fundo.
Ana, com os cabelos longos e ondulados, os olhos castanhos e o sorriso desajeitado, nunca pisou em um palco, mas sabia muito bem o que era ser platéia. Ela só não era mais uma na platéia, ela era diferente. Sempre em um dos cantos da última fileira lá estava ela. Calmamente, sentava e, ao se ajeitar na poltrona, pegava um de seus cadernos finos de rascunho.
Primeiro, enquanto estava iluminado, ela escrevia o nome da peça e uma linha depois, seu diretor. Ao terminar a apresentação, escrevia, se tinha, o importante que a peça queria passar, sua moral ou simplesmente o que tinha entendido. Começou a fazer isso porque acreditava organizar melhor os pensamentos ao escrever até que virou costume a mania de querer escrever mais. Porém, ao ver a peça em que João era o protagonista, Ana fez diferente. Aliás, não fez.
Não estava atrasada, sentou como de costume e logo as luzes se apagaram. Em seguida, lá estava o protagonista como um deus, no palco, enquanto ela lutava em pegar o caderno dentro da bolsa. Luzes azulada, amarelada e vermelheada coloriam seus charmes e ao escutar sua voz, Ana esquecera do que estava procurando na bolsa. A peça girava na trama da personagem e o certo é que quem estava tramada de desorientação era ela, Ana. Ela queria saber deles, do protagonista e do ator.
Queria saber das suas histórias, qual esporte gosta, se já teve um animal de estimação, se têm irmãs, qual o livro de ficção que mais marcou sua infância: os da J.K. Rowling ou do Antoine de Saint-Exupéry... Queria saber tudo sobre ele, dele. Desde suas cores favoritas ao seus sonhos de vida. E, principalmente, das suas bagagens. Aquelas que o levaram a ser o que hoje é.
O que Ana não sabia é que João não era lá um sonhador. Não tinha ambições ou desejos árduos. Ele só gostava de vaguear, literalmente. Andar, andar e andar sem ter um rumo certo. Pegar seu carro e viajar sem saber em qual lugar parar, mas parar e contemplar por pouco tempo o novo lugar. Em relação as atuações, ele as faziam porque eram seu ganha pão e satisfação: era o dinheiro da gasolina no final de semana para abastecer sua liberdade.
Diferente de Ana. Aliás, ela também vagueava. Vagueava pelos papéis, quer sejam eles cheios de palavras ou em branco.
Mariana Baldani
O que Ana não sabia é que João não era lá um sonhador. Não tinha ambições ou desejos árduos. Ele só gostava de vaguear, literalmente. Andar, andar e andar sem ter um rumo certo. Pegar seu carro e viajar sem saber em qual lugar parar, mas parar e contemplar por pouco tempo o novo lugar. Em relação as atuações, ele as faziam porque eram seu ganha pão e satisfação: era o dinheiro da gasolina no final de semana para abastecer sua liberdade.
Diferente de Ana. Aliás, ela também vagueava. Vagueava pelos papéis, quer sejam eles cheios de palavras ou em branco.
Mariana Baldani

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