As
brigas eram poucas, se é que podemos chamá-las assim. De vez em quando um
ciúminho aqui, outro alí, mas não mais do que isso. Eramos verdadeiros, de
corpo e alma, companheiros. Aprendemos, juntos, o que era o amor, de sentimento
puro e querer cuidar um do outro. Aprendemos também sobre doar carinho e se dar
por inteiro.
O que vivémos era só nosso: nós tínhamos a nós e isso era
suficiente. Por mais que eu queria sair para dançar, se não o fizéssemos, só de
estar com você, no nosso colchão, no nosso quarto, já estávamos em paz, feliz,
alí. Quem diria há um ano que tudo viraria ao avesso pra nós? Quem diria, meu
bem?
Eu fiz escolhas com a sua aprovação, de mudar de terra, ir pro oposto de
nossos lugares. Eu fiz escolhas de beijar outras bocas por pensar que se
fossemos nós, estaria sempre lá, guardado, reservado a nós dois. Entretanto,
tudo isso vem mostrando o contrário.
Muitos me dizem que meu pecado foi
continuar a conversar com você, na distância. Mas como teria eu me desprendido
a você por milhas de terra e mar? Como teria eu ignorado o nosso medo de não
nos amar, mais?
Se pararmos pra pensar, ainda estamos um pouco conectados, por
mais que agora cada palavra que soltamos, aperta ainda mais nossas feridas. Por
todo esse tempo, tentei, nas nossas conversas só pensar racionalmente e tive
sucesso nisso, na maioria das vezes, pelo menos. Mas chega aqui, quando eu
começo a jogar essas palavras no papel, eu percebo o quanto meu lado emocional
está gritando, clamando por você.
Sonhava com nosso apartamento, pequeno,
aconchegante, naquele lugar tranquilo. De entrar na nossa casa e sentir o
perfume bom das flores que decidimos regar, ou comprar, ok. De olhar ao nosso
colchão, no chão, e sorrir de orelha a orelha. Sentir a paz de ser o nosso
canto, o nosso lugar de gratidão. Sonhava com as nossas reuniões pra
programarmos um roteiro ao próximo destino.
Sonhava com a correria de nos ver
trabalhando, comendo juntos, a cada refeição, assistindo nossos filmes e
seriados dia sim, dia não a noite e nos amando, amando muito. Sonhava em chegar
o momentos de levarmos nossos filhos ao primeiro mergulho naquele rio de águas
cristalinas, ou aquela piscina do clube que passaríamos muito finais de semana,
ok.
Sonhava com nossos futuros, juntos, entrelaçados, com nós bem dados mas sem
a dor de nos esmagar. E foi aí que nos machucamos tanto. Foi aí, depois de fantasiar
tanto, depois de criar tanta expectativa que hoje, ao lembrar de nós, a dor é
maior.
Mariana
Baldani
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