Algo aperta
Algo constrange
Algo agride
Algo desanda
quando se anda
e segue
e vai
Pensar é o que entristece
Pensar é cavar a própria sepultura
Bendita seja a ignorância
que deixa de lado a mágoa
a morte
Que a viagem seja serena
fácil de arrastar
Que o luto pela perda
gere mudança
no agir
do reagir
Que a graça de Deus possa tocar-me
e fazer esquecer o que aprendi
o que vivi
e vi
Que seja superado
caso a memória persistir
Que minhas palavras
se afoguem no mar
do esquecimento
e que essa dor
de saber
que o sumir não se encontra
seja ao menos amenizada
É tudo só isto?
É tudo tão isso?
O mesmo olhar morto
Os risos de momentos finos
O calar de uma pintura
O transladar da faca que vai adentro
Perfeita simetria do rasgar
Cuidadosamente o sorriso a colocar
num rosto bonito
De coração a transbordar angústia
Onde fui parar, Deus?
Ainda estou aqui para conversar
Você se calou diante do filho primogênito?
Jesus passou, então, por isso?
Recusar os reinos da terra não deve ter sido fácil
Ainda mais sem o sustento da carne
que sangra
que rasga
Que corta e se espedaça
Aonde eu vim parar?
Não sou o exemplo que quis dar
Não sou o falar que quis escutar
Não sou a glória que quis tocar
Não sou o silêncio que quis deitar
Falta o chão frio
e a voz suave e autoritária
para botar-me talvez nos eixos
Por que fazes isto?
Mereço mesmo?
Qual o sentido do mundo que enxergo
em partes?
E qual é deste
da terra
que insiste em fazer comunicação com o alto?
A vida sem ti era tão fácil:
andar nas trevas
às cegas
tão agradável
o não saber
não conhecer
Não se ter os livros doloridos
que a filosofia insiste em ferir
Ao deitar, não tenho o que pensar
por isso durmo
e ao acordar reconheço a benção
de apagar
Nenhum comentário:
Postar um comentário